Madeleine acorda com a visão embaçada, uma leve dor na lombar e na cabeça. Olha para suas mãos, ainda embaçadas, enquanto vê múltiplos dedos. Respira profundamente e olha ao redor, perguntando-se o motivo de estar no chão.

Parte para a cozinha e vê seu marido no chão. Sem entender, puxa-o pelo ombro e se depara com ele sem vida, com uma faca cravada em seu coração. Quando olha ao redor, vê a cozinha totalmente ensanguentada, com marcas de mãos, enquanto um grito ecoa em sua mente, sem entender absolutamente nada.

Ela não acredita no que está acontecendo, e em sua mente vem a seguinte pergunta:
Onde estão meus filhos?
Madeleine corre pelas escadas e vai ao quarto das gêmeas, Sofia e Belinda.
Elas estavam cobertas até a cabeça. Será que se esconderam por medo? Pergunta a si mesma. Sem coragem de olhar, aproxima-se lentamente de suas filhas e, quando as descobre, ambas estão sem respirar.
Ela cai no chão e chora em desespero, deita-se em posição fetal e fecha os olhos, quando uma imagem surge em sua mente.
Então, ela recorda que havia sufocado ambas com o travesseiro.
Madeleine se levanta e caminha até o banheiro. Olhando no espelho, percebe que seu rosto e suas roupas estão cobertos de sangue. Sua boca apresenta um leve corte no canto, e as olheiras profundas destacam seus olhos negros.

Descendo pelas escadas, não volta à cozinha. Vai em direção à sala e se senta no sofá, imaginando o que fazer.
Entregar-se seria uma opção? Chamar a emergência para, talvez, tentar salvar um deles?
Mas ela se pega pensando no silêncio. Silêncio esse que há muito tempo não tinha. Um sentimento de paz e alívio que invadia seu corpo e transportava seu espírito para outro mundo.
Agora, não precisava ser a esposa ou mãe perfeita. Sem acordar cedo para colocar a mesa para seu marido e filhas. Sem ter que sair correndo para levar as meninas à escola. Sem organização de contas, sem precisar se preocupar se o marido estava demorando e se poderia estar com uma amante. Ninguém correndo pela casa, e o cachorro... E o cachorro?
Ah, sim, esboçou um sorriso. Está na lata de lixo, fatiado. Sem cachorro latindo, sem limpar bosta do tapete novo ou xixi na cortina importada. Só paz!
E que horas são? 4, 8, 10...?
Já não importava mais.
Ela se culpava por estar aliviada, mas a sensação era tão maravilhosa que se sentia flutuando nas nuvens.
Cadeia? Jamais!
Ela estava planejando como sumir com as provas do crime, pois não perderia aquela oportunidade de ser livre.
Então, Madeleine subiu para o sótão, pegou quatro malas grandes, levou-as para a cozinha, desceu com os corpos de suas filhas e começou o trabalho.
Corpos guardados nas malas, cozinha limpa e desinfetada. Era hora de tomar o banho da liberdade.
Ligou o chuveiro no mais quente, entrou debaixo da água e ficou quarenta minutos deixando aquela água quente e forte bater em suas costas, massageando e relaxando a dor na lombar com a qual havia acordado.
Saindo do banho, secou seu cabelo com o secador, pensando em como aproveitaria sua liberdade. Pegou alguns séruns, passou-os no rosto e, em seguida, seu filtro solar. Enrolou-se na toalha vermelha, foi para o quarto, vestiu um vestido também vermelho, passou um brilho labial e arrumou a cama, como se fosse um dia normal.
Descendo, preparou o café e colocou os quatro lugares à mesa. Aquela seria sua despedida da antiga vida de servidão.

Cansada, sentou-se no sofá, jogou a cabeça para trás e relaxou.
Passados cinco minutos, ouviu um barulho de carro, alguns passos em direção à sua porta, um latido e, então, abriram a porta.


