Extra, extra, saiu no jornal.
Jovem assassinada numa quinta-feira, por volta das 3 da madrugada.
Pele morena, cabelos pretos e lisos, molhados no asfalto. Os olhos ainda abertos, que gravaram o rosto de seu algoz.
Não se sabe se foi engano, vingança ou cortesia, mas, para o desfecho, pouco importa.

5 da manhã, trabalhadores saindo para iniciar o dia, e o corpo esperando. Fotos, flashes, vídeos e até um senhor que faz comentários maldosos.
Um grito estridente, um pedido de socorro e tiros foram ouvidos pela vizinhança, mas quem iria olhar?

Um padre aparece e fica incrédulo, pois era a menina que sempre se sentava na terceira fileira da paróquia do bairro vizinho, mas mal falava, muito menos se confessava.
Estava usando uma saia curta, branca e um salto-agulha. E as pessoas continuam perguntando: o que uma menina estaria fazendo sozinha na rua às 3 da manhã?
6, 7 horas, e nada de chegar alguém para buscá-la. Aquela cena era tétrica, mas, compulsivamente, as pessoas se amontoavam para ver.
Os olhos ainda abertos, e uma senhora pergunta:
De que cor são mesmo os olhos dela? Não consigo enxergar daqui.
Sem resposta, pois o interesse maior era no orifício ao lado de sua cabeça e nas marcas de unhas em um dos seios, que estava levemente à mostra.
A chuva passou, e nem sangue havia mais. Sem família, sem amigo, quem era aquela mulher?
Os olhos ainda vidrados. Parecia que sua alma ainda estava cativa naquele corpo, mesmo sem respiração e sem sangue, que fora drenado pelo bueiro redondo ao lado.

8, 9, 10 horas, e ninguém buscou o corpo. Ele permanece descoberto, com o ferimento aparente, naquela encruzilhada em T, enquanto algumas senhoras colocam cadeiras de praia próximas, esperando o desfecho.
Meio-dia, e finalmente alguém chegou. Perguntam o que houve, se sabem o nome e descobrem que ela não morava ali.
Finalmente, cobrem e retiram o corpo do local.
Só se vê um vestígio de sangue, que já havia sido, em grande parte, lavado pela chuva.

Uma criança olha e diz:
Deixaram um de seus sapatos. E agora?
Todos se olham e saem do local, sem dar atenção ao menino.
Uns se benzem, e outros correm para fofocar. Quem era aquela mulher?
Extra, extra, saiu no jornal.
Meio-dia, a magia terminou. Cinderela deixou seu sapato e nunca mais acordou.

