25 de março, numa tarde ensolarada, em um bairro nobre do Rio de Janeiro, um homem bem-apessoado, com terno alinhado, sapatos de solado vermelho, aparentemente pouco usados, caminha pela rua, apressado, em direção ao fórum.

Esse era Guilherme, advogado recém-formado, filho de um casal de imigrantes italianos, donos de algumas padarias pela Zona Sul da cidade.

Enquanto Guilherme se apressa, olhando em seu relógio de couro, de marca famosa, que acabara de ganhar de seu pai por ter passado na OAB, ele observa uma jovem senhorita, sentada no banco da praça, lendo um livro que ele teve curiosidade de saber qual era, mas que, por sua pressa, não conseguira.

Guilherme caminha apressado em direção ao fórum e observa uma jovem lendo na praça

No dia seguinte, no mesmo horário, Guilherme passava pela mesma praça, só que sem pressa. Ele observa a mesma menina sentada no banco da praça, lendo o mesmo livro, que reconheceu pela cor e pelas gravuras da capa, mas, antes de conseguir ler o título, se distraiu com o longo cabelo ondulado, castanho-claro, nariz arrebitado, pescoço alongado e os óculos dourados que a menina usava e ajustava em seu delicado rosto.

A Senhorita X lê um livro com uma cerejeira na capa enquanto Guilherme a observa

Três dias depois, sem ter visto a jovem moça e perguntando-se se voltaria a vê-la, tornou a encontrá-la. Ao lado dela estava uma senhora com uma carrocinha de sorvetes, e ele pensou em comprar. Além do calor, seria uma boa justificativa para puxar assunto com tão bela senhorita. Quando se aproximava da senhora, olhou seu relógio, o mesmo que havia ganhado de seu pai, e percebeu que estava 30 minutos atrasado. Então, recuou e seguiu seu destino.

Guilherme confere o relógio e se afasta da jovem ao lado de uma carrocinha de sorvetes

Alguns dias se passaram, e ele não a encontrou mais.

Certo dia, a viu, não sentada no mesmo banco, mas na cafeteria, duas quadras depois da praça. Nesse dia, ele estava sem pressa e resolveu sentar-se à mesa ao lado da dela. Viu o que ela estava comendo e perguntou a ela. Ela não entendeu o que ele disse, talvez por estar entretida com seu conto, que, mesmo forçando a vista, ele não conseguiu ler o tema, mas pôde ver a gravura de uma árvore de cerejeira. Mas, quando entendeu o que Guilherme dizia, respondeu:

Torta de maçã. Sempre como a mesma, toda quarta-feira, nesta hora, pois saem quentinhas.

Disse com um leve sorriso no canto da boca, enquanto passava a mão no cabelo, tirando a franja da lente de seus óculos.

Ele ficou nervoso, pois não esperava que, além de linda, fosse tão educada e gentil.

Guilherme conversa com a Senhorita X diante de uma torta de maçã na cafeteria

A partir daquele momento, olhou em seu relógio, percebendo rapidamente que havia um pequeno arranhão no canto, próximo ao número 2, mas seu interesse real estava em estabelecer um dia e horário para seu próximo encontro “ao acaso” e, talvez, conhecê-la melhor.

Durante a semana, pensou em como poderia abordá-la e, talvez, pedir seu telefone. Pensou na roupa e no perfume que usaria para esse acontecimento tão especial.

Na próxima quarta, Guilherme apareceu às 15h30 e lá ficou até as 17h, mas não a encontrou. Entendeu que deveria ter acontecido alguma eventualidade, portanto, ele voltaria para encontrá-la.

Guilherme havia trocado poucas palavras com ela, mas, só de pensar, já a imaginava apresentando-a aos seus pais como sua namorada. Pensou no futuro que pudesse ter com ela e no quanto era louco seu coração acelerar tanto por alguém que mal conhecia.

Guilherme voltou à mesma cafeteria por três semanas, no mesmo dia e hora, mas não a encontrou em nenhuma das vezes.

Na quarta semana, depois de olhar seu relógio por quatro vezes, ele perguntou à garçonete sobre aquela jovem de cabelos claros e ondulados, que sempre pedia a torta de maçã.

A garçonete não soube responder, mas, na mesa ao lado, estava um senhor que disse que era amigo do pai da jovem.

Animado por ter notícias, o som das palavras do senhor se embaralhou em sua mente, mesmo tendo ouvido exatamente cada sílaba. Incrédulo com o que ouvira, Guilherme perguntou novamente:

O que foi mesmo que aconteceu?

O senhor olhou para baixo e se retirou.

A garçonete, sem entender, voltou a atender as mesas, enquanto uma singela lágrima rolou pelo rosto de Guilherme, sofrendo por alguém que mal conhecia, pelas fantasias que criara.

Guilherme permanece sozinho na cafeteria diante da cadeira vazia
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