Agenda cheia de compromissos, listas e mais listas, diversos aplicativos no celular para organização financeira, organização de agenda, tarefas e listas que se perdem com mais listas. Passamos a fazer listas das listas, tentando gerenciar nossa vida familiar, profissional, estudo, trabalho, lazer, saúde e uma cobrança interminável, porque não damos conta.
Quantas pessoas eu vejo se queixarem de que o dia é curto, de que 24 horas no dia são muito poucas.
Difícil não ter ansiedade, não é verdade?
Pois a autocobrança faz acharmos que somos incapazes.

É curioso, pois antigamente não tínhamos a tecnologia que temos hoje para nossa organização, facilitando extremamente nossa vida em diversas questões. Então, por que parece que a cada dia ficamos mais enrolados?
Acredito que a pressão externa que sofremos, seja nas redes sociais, na relação com o tempo ou na comparação que fazemos com amigos, nos coloque em um lugar de sempre querer fazer mais.
Antes, não tínhamos acesso a diversas informações, como a de que, se você treinar membros inferiores, reduz drasticamente o risco de desenvolver Alzheimer. Ou que comida orgânica, por não conter fertilizantes químicos, diminui o risco de câncer.
Antes, a expectativa de vida era de 45, 50 anos. Hoje, as pessoas estão passando dos 100.
Outro dia vi na internet uma matéria que dizia: “Ônibus entrou na casa humilde e foi apanhar velhinha de 42 anos.”
Ou seja, estamos vivendo muito mais e, com isso, as responsabilidades crescem a cada dia.

Antigamente, uma pessoa não precisava administrar a própria existência com o nível de informação que temos hoje.
Hoje você “precisa” pensar na alimentação, musculação, cardio, sono, saúde mental, aposentadoria, investimentos, carreira, atualização profissional, networking, relacionamento, filhos, lazer, propósito, redes sociais...
E, a cada nova descoberta, aumentamos mais as nossas obrigações.
“Bendito seja aquele que ignora a própria existência.”
Talvez não tenhamos ficado piores em administrar a vida. Talvez tenhamos aumentado absurdamente a quantidade de coisas que consideramos necessárias para administrá-la corretamente.
Quanto maior nossa consciência sobre todas as possibilidades de existência, maior pode ser nossa angústia diante daquilo que não conseguimos realizar.

Mas me vem uma questão à mente:
O que seria melhor? Viver livre, sem a consciência do que nos prejudica, tendo total liberdade para fazermos apenas o que nos convém, ou saber tudo o que sabemos, demandando absurdamente, mas vivermos mais e com qualidade de vida, mesmo que aos trancos e barrancos?
Saber nos dá poder para escolher melhor, mas cada novo saber pode criar uma nova coisa pela qual nos sentimos responsáveis. Estamos em um paradoxo, mas escolheríamos não saber o que sabemos?
É difícil não se frustrar, pois queremos saber tudo, mesmo sabendo que nunca saberemos, mas desejamos a liberdade da ignorância.
Talvez, depois de toda essa reflexão, aquelas listas já não signifiquem simplesmente desorganização. Elas significam adaptação!

Tudo está evoluindo rápido demais, e os novos conhecimentos trazem novos conhecimentos. Quando encontramos uma resposta, surge uma nova pergunta, que logo é sanada, trazendo mais três perguntas, que tornam este ciclo interminável. Mas o ser humano segue se adaptando, seja com apps, listas ou post-its.
Não dar conta de tudo não demonstra necessariamente incapacidade, porque dar conta de tudo nunca esteve entre as possibilidades.
Essa resenha não é sobre gestão de tempo ou organização: é sobre priorizar sem se culpar. E existe uma diferença muito grande entre o que queremos que seja prioridade e o que realmente é prioridade, pois querer não significa fazer. O seu tempo usado dirá!


