Noite gélida, garras frias e pontudas, como as de uma aranha gigante, que envolviam todo o seu corpo. Ele podia sentir aquele hálito com cheiro de comida podre e um odor amadeirado. Ele não se lembrava detalhadamente, mas não conseguia esquecer o medo que sentira. Um monstro, um sonho ou só imaginação?
Não soube distinguir o real do imaginário. Será que monstros realmente existem?
Perguntou-se por anos, quando se recordava daquela viagem da família para a casa de campo, em 97. Quando vivia sonhos durante o dia e pesadelos terríveis à noite.

Pedro, menino alto, magro e tímido, ingressou na faculdade tão sonhada. Estudaria arte e teria como mentor um grande ídolo. Ele pintava, mas queria expandir seus horizontes e ter novas experiências.
Seu quadro, sempre começando pelo fundo sombrio de uma lembrança, talvez.
Dependendo do dia, se desdobrava em magia ou pesadelo.
Primeira noite fora de casa, com um colega de quarto um tanto esquisito.
Como roncava e falava dormindo, atrapalhava o sono de Pedro, que colocava fones de ouvido para tentar relaxar.
No dia seguinte, com olheiras e péssimo humor pela noite transtornada, Pedro vê alguém familiar. Era Lucca, filho mais velho de um casal amigo de seus pais, que costumava viajar junto com sua família nas férias.
Rapidamente, vira o rosto, pois não queria ser reconhecido, pelo menos naquele momento, em que suas olheiras gritavam e nem sequer havia escovado os dentes, pois se atrasara.
Infelizmente, a fuga não sai como esperava, e Lucca o reconhece, dizendo:
“Quanto tempo não nos vemos! Que bom saber que você também está estudando aqui.”
Lucca era veterano do curso de medicina, jovem de corpo definido, cabelo estilo old money e ar de superioridade. Falava como se fosse o próprio professor e tinha toda a certeza de tudo. Afinal, se tornaria médico em breve.
Terminando o dia caótico, Pedro voltou para seu dormitório e percebeu que seu colega não estava mais ali, muito menos seus pertences. Ele agradeceu ao universo e dormiu sem nem tomar banho. Como ele precisava daquele sono.
A noite foi tranquila, mas, às 4 da manhã, ele acordou para beber água, voltou a dormir e seus pesadelos retornaram.
Monstro-aranha? Alma penada? Que ser é esse que tanto me persegue há anos a fio? Pedro questionou.
O relógio tocou. Era hora de se levantar, mas, quando percebeu, havia urinado na cama. Pedro parou, refletiu, trocou seus lençóis, tomou um banho e saiu.
Ele estava incomodado, mas não por conta de seu pesadelo ou por ter urinado na cama. Afinal, não foi a primeira nem seria a última vez.
Pedro estava com bloqueio criativo e, sempre que seus pincéis tocavam a tela, ele só conseguia criar monstros de oito patas, com garras afiadas. Pensando em aceitar seu estilo gótico e criar a partir do que sentia, decidiu arriscar.

Sua professora, embora tivesse sido tomada por uma leve estranheza, pôde perceber os traços perfeitos de sua arte e a emoção sombria que existia por trás das imagens pintadas.
Em êxtase pelos elogios, anotou em seu caderno todos os seus pesadelos para criar sua próxima obra de arte.
Chegando ao seu dormitório, Pedro percebeu que havia uma nova pessoa, mas que, pelo visto, parecia ser mais agradável e organizada.
Jantou, tomou banho e, ao voltar, encontrou Lucca, que viria a ser seu novo colega de quarto.
Conversaram durante a noite, enquanto tomavam algumas doses de tequila, rindo do passado e lembrando do bullying que Pedro sofria de Lucca e seus irmãos.
1h45. O sono bateu, e foram dormir.
3 horas em ponto, Pedro acordou.

O monstro havia retornado. Ele sentia as garras envolvendo todo o seu corpo e se lembrara daquela sensação da noite gélida de 97. Olhou para o relógio, e ainda eram 3h02.
Perguntou a si mesmo se ainda estava dormindo, mas não, pois sentia dor e um medo que em sonho algum pudera sentir. Ele conseguia sentir o mesmo cheiro amadeirado, mas o hálito não era podre como antes. Embora pudesse sentir um cheiro desagradável, o hálito era de tequila.


